Postagem em destaque

TODOS OS DORAMAS BL JAPONESES (LISTA)

Lista de todos os doramas BL lançados no Japão, com suas respectivas datas de estreia. Os que tiverem entrevistas com os atores traduzidas a...

sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

ENTREVISTA: NOMURA KŌTA E KANEKO SHUN'YA FALAM SOBRE PERFECT PROPOSE (PARTE 1)

Em primeiro de janeiro, o Meow Fansub (dedicado a séries e filmes BL) fez uma lista com as 50 séries mais assistidas em 2024. Os tailandeses dominam, claro, mas fiquei um pouco surpreso com o quão pouco vistas são as produções japonesas. Hidamari ga Kikoeru, que eu amei boa parte do tempo, aparece na posição 45 e Miseinen foi só mostrado com menção honrosa na posição 53!
Fiquei aguardando conforme os nomes iam sendo anunciados para ver se surgia alguma outra coisa. Fora Hidamari, há mais 7 séries: 25-ji – Akasaka de (41), Koi wo Suru Nara (37), Cosmetic Playlover (35), BL Dorama no Shuen (23), Takara (21), Perfect Propose (20) e Love in the Air – Koi (18).
Percebam que a série japonesa mais assistida sequer entra no TOP 10 e só conseguiu essa posição por ser adaptação de uma obra tailandesa. O Japão tem produzido uma quantidade enorme de BLs nos últimos anos. O problema é sempre a distribuição e a divulgação deles. São pouquíssimos que consegue furar a bolha, digamos assim.
De toda essa lista, eu assisti Hidamari, 25-ji e tentei ver Takara, mas não consegui completar. Estou também acompanhando Miseinen, ainda em exibição. Love in the Air tem o Nagumo Shōma, o que sempre é um incentivo para assistir às coisas, mas aquela peruca horrorosa que botaram nele me desanima e eu não consumo as coisas que a autora da obra original faz. Não vi, portanto, a versão tailandesa.
Por fim, queria ver a razão do relativo sucesso da segunda obra mais vista, então passei os últimos dois dias assistindo a Perfect Propose. Parece-me um retrato muito verdadeiro dos horrores de se trabalhar em uma burakku kigyō/gaisha, as corporações/empresas que hiperexploram seus funcionários. O protagonista estava claramente em depressão e parecia mesmo a ponto de morrer por excesso de trabalho (karōshi). Apontarem como as humilhações dele aconteciam de forma a mantê-lo com autoestima baixa para poderem segurá-lo trabalhando para eles foi algo muito interessante. Imagino que essa seja mesmo a dinâmica da coisa.
Dito tudo isso, fui procurar alguma entrevista com os atores e descobri que o Eiga Natalie (a seção para filmes do Comic Natalie) bateu um papo com eles quando do lançamento do Blu-ray e do DVD da série ano passado. Dividirei o texto em duas partes, conforme o original. Mantive a configuração e as fotos o mais próximo possível do que está lá. Segue a tradução:

P. S.: o Kaneko cita seu cabelo pintado como motivo para não ir à sauna. Pesquisei e aparentemente não é recomendado frequentar o lugar logo após o tingimento porque a tinta pode sair mais rápido.

 


Perfect Propose: O reencontro de duas pessoas que prometeram ficar juntas no futuro.

Uma história que cura criada por estes dois que protagonizam ambos um dorama pela primeira vez.

 

O Blu-ray e o DVD do dorama BL protagonizado por Kaneko Shun’ya e Nomura Kōta serão colocados à venda dia 3 de julho (quarta-feira). Esta obra, versão live action do mangá homônimo de Tsurukame Mayo, é uma história de amor que começa a partir do reencontro entre Watari Hirokuni e Fukaya Kai, que prometeram ficar juntos no futuro quando eram jovens. Kaneko interpreta Hirokuni, um personagem que sofre com a pressão e abuso de poder de seu chefe, vivendo seu dia a dia sem conseguir dormir; Nomura interpreta Kai, um rapaz mais novo e frio com excelentes habilidades domésticas que passa a morar com o outro por acidente.

O Eiga Natalie realizou uma entrevista com Kaneko e Nomura para celebrar a venda do Blu-ray e do DVD. Nós conversamos sobre o que eles consideram fofo um no outro, o que vale à pena ser visto nos extras que mostram os personagens depois de eles terem ficado juntos, o que eles ganharam enquanto atores através dessas gravações etc.

 

Coleta de dados/texto: Kobayashi Chie    Fotos: Yanase Tamami

 

“Nós conseguimos construir uma relação muito confortável.” (Kaneko)

 

– Qual impressão vocês tinham um do outro antes de atuarem juntos? E essa impressão mudou depois que atuaram?

 

Kaneko Shun’ya: Ele é alto e estiloso. Eu achei que a expressão “bom garoto” lhe caía bem. Além disso, através das gravações, percebi que ele é extremamente amigável e, por ser um bom garoto que também tem um lado fofo, é alguém imbatível.

 

Nomura Kōta: Muito obrigado (risos). A impressão que eu tinha antes e depois de atuarmos juntos mudou completamente. No começo eu achava que ele era uma pessoa quieta, que não fala muito; porém, conforme fomos lendo o roteiro e ensaiando, consegui ver bastante do seu lado brincalhão, fofo e alegre.

 

A partir da esquerda: Nomura Kōta e Kaneko Shun'ya

– Contem-nos sobre a impressão que tiveram da atuação um do outro e da forma como se comportavam no set.

 

Kaneko: Nós conseguimos nos comportar de forma natural, sem ficar tendo que prestar atenção especial a nada. Embora tenhamos 4 anos de diferença, acho que conseguimos construir uma relação muito confortável sem sentir muito essa diferença.

 

Nomura: Na gravação da abertura do dorama, houve uma cena em que pediram para nós improvisarmos uma conversa porque eles filmariam isso. A grande ajuda que o Shun’ya me deu ali foi marcante. Como eu não estava conseguindo de forma alguma, ele tomou a iniciativa e improvisou para mim.

 

Kaneko: Como era uma cena em que deveríamos falar livremente, eu fui tocando nos assuntos ordenadamente, mas ele ficava ruminando sobre o que deveria falar (risos). Isso também foi fofo.

 

– Houve alguma outra coisa sobre a qual vocês falaram em relação à atuação, para além dessa cena de improvisação?

 

Kaneko: Não houve nada.

 

Nomura: Nós apenas tratamos com cuidado o que íamos sentindo em cada uma das cenas.

 

Kaneko: Isso. Se nós conversássemos demais antes, a coisa pareceria muito programada e isso também não seria bom. E, para começo de conversa, nós também estávamos muito presos dentro de nossas próprias cabeças (risos). Olhando agora em retrospectiva, acho que isso foi bom.

 

Foto de cena de Perfect Propose: Fukaya Kai, interpretado por Nomura Kōta (esquerda), e Watari Hirokuni, interpretado por Kaneko Shun'ya

– Esta obra é a primeira atuação em conjunto de vocês dois. Como fizeram para construir uma relação de confiança?

 

Kaneko: Como as gravações da casa do Hirokuni foram feitas em um apartamento, nós ficávamos conversando bobagens no intervalo em que ocorriam as mudanças no set. Acho que foi construída assim, aos poucos.

 

Nomura: Além disso, nós dois gostamos de sauna. Quando soubemos que tínhamos o mesmo hobby, ficamos empolgados e acho que isso também foi importante.

 

Kaneko: Verdade! Mas ainda não conseguimos ir à sauna juntos, né?

 

Nomura: Não conseguimos, né?

 

Kaneko: Havia a questão do meu cabelo pintado e nossas agendas não batiam. Precisamos ir algum dia.

 

Nomura: Sim!

Da esquerda: Nomura Kōta e Kaneko Shun'ya


“Eu gosto do sorrido inocente que o Shun’ya mostra” (Nomura)

 

– O que vocês acham fofo e o que vocês acham um pouco odioso um no outro?

 

Nomura: Hã!? (Risos)

 

Kaneko: Durante as gravações, haviam arranjado duas cadeiras para nós, porém ele, embora tivesse sua própria cadeira, veio sentar em cima do meu joelho. Eu achei isso fofo. Quanto ao lado odioso... Ele é alto, seu rosto é pequeno e bonito e, além disso, ainda tem músculos. Ele é um pouco perfeito demais.

 

Da esquerda: Nomura Kōta e Kaneko Shun'ya

Nomura: Hahaha.

 

Kaneko: Mais do que algo odioso, eu ficava sempre pensando em quanto sentia inveja dele.

 

Nomura: Eu gosto do sorriso inocente que o Shun’ya mostra. Tanto durante sua atuação, quanto durante o intervalo, ele sorria de maneira amável. Quanto ao lado odioso... qual seria?

 

Kaneko: É difícil, não é?

 

Nomura: É difícil! Mas se fosse para falar algo que invejo, seria sua excelência em tarefas domésticas. Você sabe fazer comida e gosta de limpar a casa, né?

 

Watari Hirokuni, interpretado por Kaneko Shun'ya

Kaneko: Isso.

 

Nomura: Se fosse para escolher um lado, diria que estou no dos que não são bons nisso, então sinto inveja.

 

– É o oposto dos seus papéis, não é?

 

Nomura: Sim. O Kai é bom em fazer comida, mas eu pessoalmente nunca cozinhei muito. Nas cenas, nós gravamos conversando sobre como fazer para parecer que eu cozinhava rotineiramente.

 

– Kaneko interpreta Watari Hirokuni, um personagem que sofre com a pressão e abuso de poder de seu chefe, vivendo seu dia a dia sem conseguir dormir; Nomura interpreta Fukaya Kai, um rapaz mais novo e frio com excelentes habilidades domésticas. Como vocês percebem os seus próprios papéis e como vocês os interpretaram?

 

Fukaya Kai, interpretado por Nomura Kōta

Kaneko: O Hirokuni, embora receba pressão por parte de seu chefe, tem força mental para continuar perseverando em seu trabalho. Porém, ao voltar para casa, ele nem toca nas tarefas domésticas. Sente-se esse vão entre as duas coisas. Mas tanto em relação aos colegas do trabalho, quanto ao Kai, ele é cheio de gentileza. Eu o interpretei tomando cuidado para que conseguissem perceber apropriadamente a mudança dos sentimentos sensíveis que estão dentro dele.

 

Nomura: O Kai é frio, indiferente e não deixa suas emoções transparecerem em seu rosto. Comparado a ele, eu deixo minhas emoções aparecerem facilmente e creio que minha personalidade seja mais calorosa do que fria. Então tenho a impressão de que há muitas diferenças entre nós. Porém como senti que há gentileza e uma consideração para com os outros própria do Kai dentro dessa frieza, interpretei-o com a consciência de que há essa gentileza e um calor no fundo de seu coração.

sábado, 28 de dezembro de 2024

MINHA CENA FAVORITA DE ASUNARO HAKUSHO ATÉ AGORA

Matsuoka é o personagem de camisa branca e blazer cinza (?) à direita

Pensei que estivesse enlouquecendo.

 

Comecei a assistir “Asunaro Hakusho” ontem, dia 27 de dezembro. Primeiro porque há anos já tenho interesse nessa história; segundo porque realmente não queria jogar mais uma vez para o próximo ano. Acontece que um personagem começou a dar sinais de ser, talvez, gay. Como eu vejo muitos BLs, pensei que estivesse imaginando coisas, vendo coisas onde não havia. Daí minha surpresa quando, chegando ao episódio 4, a homossexualidade dele se confirmou e foi revelado que ele é apaixonado pelo mocinho da trama...

Para quem não sabe, Asunaro Hakusho é um dorama, baseado em um mangá seinen homônimo, que foi exibido no último trimestre de 1993. É um dos grandes sucessos da década de 90 e sua popularidade ajudou a catapultar a carreira de Kimura Takuya, um dos maiores idols da História do Japão. O enredo retrata a vida universitária de 5 amigos, os protagonistas – Narumi Sonoda e Tamotsu Kakei – e mais 3 coadjuvantes – Toride (interpretado pelo Kimura), Higashiyama e Matsuoka. É este último o personagem LGBT+ do grupo.

Elegante, bonito (o ator me lembra o Hanyū Yuzuru), inteligente, ele é o rico dentre eles. É um típico bocchan (botchan), o equivalente masculino das ojou-sama dos mangás shoujo. Aliás, a Higashiyama inclusive diz que ele é o herdeiro do zaibatsu (conglomerado financeiro/industrial) da família Matsuoka. Disso vocês tiram que ele não é só classe média alta, mas muito rico MESMO.

Assim, personagens gays não são novidade em mangás. Já postei aqui sobre o desenvolvimento do BL. Minha surpresa foi um dorama tão popular ter colocado uma subtrama assim, imagino que por estar presente no quadrinho de origem. Vejam que geralmente o que tinha em doramas era alívio cômico, tanto com personagens gays espalhafatosos e afeminados quanto com okamas (homens que se vestem com roupas femininas, não necessariamente LGBTs). Mas a trama dele é séria, melancólica.

Enfim, no mesmo episódio no qual é revelado sua paixão, há um diálogo muito bom entre ele e a Higashiyama falando sobre isso. Esse tipo de cena apareceu aos montes nos BLs tailandeses, principalmente os da primeira geração saídos entre 2016 e 2020, porém não esqueçam que este dorama é do final de 93.

Eu vou colocar a transcrição que fiz aqui, mas tenham em mente que o original pode ter utilizado kanjis diferentes dos que usei em algumas partes, ou mesmo colocado coisas em hiragana. Embaixo escreverei minha tradução, porque a do Youtube (onde estou assistindo) está um tanto estranha nessa parte. Algumas partes dos diálogos que vi até agora nem foram traduzidas...

 

東山: 私と松岡はさあ... なるみの言ってた寂しい者同士ってやつだな。

 

松岡: どういう意味で?

 

東山: お互い掛居に片思い... ごめん、本当はこの間手紙見ちゃったんだ。良いじゃないか。

 

松岡: 掛居は男だ。

 

東山: 男が男好きになることだってあるだろう?松岡らしくないよ。もしそんなことで悩んでるんだったら私はナンセンスだと思うな。

 

松岡: 本当にそう思うか。

 

東山: うん!

 

松岡: 俺を軽蔑しないのか。

 

東山: する訳ないだろう?

 

松岡: そうか。

 

東山: 人を好きになる気持ちは誰にも止められないし、誰にもそれを非難する権利なんてないと思う。もちろん松岡自身にもね。この世で一番尊い感情だと思うな。

 

Higashiyama: Eu e você... somos o que a Narumi chamou de “seres solitários”, não é?

 

Matsuoka: O que você quer dizer com isso?

 

Higashiyama: Nós dois temos um amor não correspondido pelo Kakei... Desculpe, na verdade, eu acabei vendo sua carta naquele dia. Não é bom que você goste dele?

 

Matsuoka: O Kakei é um homem.

 

Higashiyama: Homens apaixonarem-se por homens é algo que acontece, não? Esse seu comportamento não parece com você. Se você está sofrendo por isso, eu acho um despropósito.

 

Matsuoka: Você realmente acha isso?

 

Higashiyama: Sim!

 

Matsuoka: Você não me desprezará?

 

Higashiyama: Não há motivo algum para isso, não é?

 

Matsuoka: É mesmo?

 

Higashiyama: Eu acho que apaixonar-se por alguém é algo que ninguém pode parar e ninguém tem o direito de criticar. Claro, nem você. Acho que é o sentimento mais valioso neste mundo.


É todo mundo tão bonito nessa novela...

domingo, 1 de dezembro de 2024

ENTREVISTA: AGITOGI AKUMI, AUTORA DE "MEU CASAMENTO FELIZ", FALA SOBRE SUA OBRA

Em julho de 2021, quando o volume 5 de “Meu Casamento Feliz” estava para ser lançado, o jornal Asahi, um dos mais importantes do Japão, fez uma entrevista com a autora das “light novels”, Agitogi Akumi. Eu a estava traduzindo quando tropecei na entrevista do Takahashi Makoto, então deixei aquela de lado para fazer esta. Como as duas não são muito grandes e nenhum dos sites são pesados, consegui terminar cada uma em um dia. Para quem quiser ler em japonês, o original está aqui. As imagens são todas de lá. Espero que gostem.

 


Entrevista com Agitogi Akumi, de “Meu Casamento Feliz” – Esta história de Cinderela ao estilo japonês, que ultrapassou os 3 milhões de volumes em circulação, deixa os corações das leitoras palpitando!

 

A obra literária “Meu Casamento Feliz” (KADOKAWA) cujos personagens são populares é uma história de Cinderela ao estilo japonês, tendo por palco os períodos Meiji e Taishō, em que Miyo, uma jovem criada sob os maltratos de sua madrasta e sua meia-irmã, vai em casamento para a casa de Kiyoka, um militar que possui forças sobrenaturais. A história ultrapassou 3 milhões de exemplares em circulação (N.T.: em setembro de 2023, o número estava entre 8 e 9 milhões, incluindo as vendas do mangá e digitais) e já foi transformado em mangá também (N.T.: na época, o animê ainda não havia sido anunciado). Antes do lançamento do quinto volume, o mais recente, do romance em 15 de julho, perguntamos à autora, Agitogi Akumi, sobre o processo de criação das obras e seu histórico como leitora.

Texto: Nezu Kanako

 

Agitogi Akumi:

Nascida em Nagano. Estreou em 2019 com “Meu Casamento Feliz” (KADOKAWA). Além da versão em mangá desta obra estar sendo serializada na revista GanGan Online (mangaká: Kōsaka Rito, design original de personagens: Tsukioka Tsukiho, volumes publicados pela Equare Enix), está planejada uma leitura dramática para este verão.

 

Resumo:

Saimori Miyo é uma jovem que, embora tenha nascido em uma linhagem familiar possuidora de habilidades especiais sobrenaturais, não herdou essas habilidades e recebe ordens de se tornar noiva de Kudō Kiyoka, um jovem belo que tem fama de ser frio e implacável. No começo, ela recebe um tratamento frio de Kiyoka, porém, ao viverem juntos e enfrentarem diversas dificuldades, os dois aos poucos criam laços emocionais.

 

Livros de fantasia histórica eram meus favoritos

 

– Esta é sua obra de estreia. Por volta de quando você teve por objetivo tornar-se uma escritora?

 

Eu não tinha pensado claramente até este momento em me tornar escritora, porém creio que comecei a achar que imaginar histórias era algo divertido por volta do período em que era estudante do Ensino Fundamental. Nas aulas de Língua Japonesa, quando eu imaginava histórias vendo os desenhos e fotos, ficava pensando como o ato de as escrever era interessante.

A vontade de escrever algo próprio apareceu depois que me tornei estudante do ginasial. A partir daquela época, escrevia em meus cadernos histórias de fantasia e mostrava para amigos com quem tinha boas relações. Eles diziam que era interessante ou que queriam saber a continuação e isso me deixava feliz.

 

– Quais livros você lia nessa época? Há algum autor cuja influência você recebeu?

 

Eu sempre gostei de leitura e quando estava nos anos finais do Ensino Fundamental lia com afinco obras que se passam em outros mundos com um toque de elementos chineses como “Relato dos Doze Reinos” (“Jūni Kokuki”, autora: Ono Fuyumi), “Narrativas da Terra das Nuvens Coloridas” (“Saiunkoku Monogatari”, autora: Yukino Sai), e “Registros de Guerra de Arslan” (“Arusurān Senki”, autor: Tanaka Yoshiki). Eu lia com bastante frequência obras de fantasia histórica. Nessas três histórias, os personagens estão escritos com suas próprias individualidades, há elementos épicos e, embora seja um mundo ficcional, parece que estou olhando para um pedaço de livro de História, o que eu achava interessante, então lia muito.

Quando estou lendo fantasia, não sinto vontade de ir para os mundos, porém sinto admiração por serem completamente diferentes do mundo em que estou e ao ler as coisas que os outros escrevem ficava empolgada pensando que tipo de personagem colocaria se fosse eu a criadora.

 

– Há alguma obra que a influenciou especificamente?

 

Quando escrevo “Meu Casamento Feliz”, acho que as influências diretas sobre mim são as obras “RDG – Red Data Girl” de Ogiwara Noriko e “O Dia a Dia Elegante no Apartamento dos Yōkais” (Yōkai Apāto no Yūga na Nichijō) de Kōzuki Hinowa, as quais li quando estava no ginasial. Eu me sinto atraída por histórias nas quais pessoas normais vão para a escola, vivem suas vidas normalmente, mas por trás dessa fachada elas na verdade tem uma habilidade um pouco misteriosa.

 

Pegar por si mesma a oportunidade de mudar

 

Ilustração: Tsukioka Tsukiho

– Por culpa da criação que teve, em que foi oprimida por sua madrasta e sua irmã mais nova, sendo tratada com empregada, a Miyo, protagonista desta obra, tem enraizado o hábito de julgar os outros pela aparência e a personalidade de alguém que se desculpa automaticamente quando os outros fazem qualquer tipo de alusão ao seu comportamento.

 

Olhando objetivamente para esta obra, penso fortemente que não importa o quão terrível seja o ambiente onde uma pessoa está, em alguma parte dele certamente haverá uma oportunidade para ela conseguir mudar. Se conseguirá materializar isso ou não depende dela, por isso acho importante que ela procure evitar ao máximo deixar tudo para os outros fazerem.

 

– Não devem ser poucas as leitoras que, vendo esta Miyo em forte estado de autonegação, identificam-se com a personagem. Você teria algum conselho ou mensagem para as pessoas que se autodepreciam ou acham que não têm valor?

 

Como é comum que eu própria, olhando meus manuscritos, pense que ninguém vai querer ler as coisas que escrevo (sorriso amargo), não conseguiria aconselhar muito bem, porém penso que a autoexpressão é algo importante.

No meu caso, quando começo a ter dúvidas, eu peço que alguém me ouça, ou transformo isso em obra e entrego para o mundo; quando estou me sentindo deprimida, acho que é bom começar a escrever em algo. Fazendo isso, consigo olhar para mim mesma de forma um pouco mais objetiva e pensar que talvez eu não seja tão ruim assim.

 

– Miyo e Kiyoka estão ambos em estado de “amor mútuo não-correspondido”, em que sentem afeição um pelo outro, mas não conseguem colocar em palavras ou ações. A partir disso, eles vão diminuindo sua distância e, após entenderem que esse sentimento é amor, começam a transmitir isso aos poucos para seu companheiro.

 

Tanto Miyo quanto Kiyoka são imaturos, ou melhor, eles estão em um estado mental no qual não conseguem chegar no ponto do “amor”. Eu pensei que, para que conseguisse levá-los até esse momento, devia fazê-los crescer enquanto seres-humanos dentro do desenvolvimento da história.

 


– Esse amor dos dois que não progride rápido o suficiente é doloroso, mas também faz o coração palpitar!

 

Por mais que você se apaixone por alguém, penso que você só conseguirá refletir sobre qual a melhor forma de se conectar com seu companheiro ou como cuidar dele quando você tiver crescido como ser humano. Por isso o relacionamento dos dois está naturalmente indo em um ritmo calmo.

Especialmente a Miyo. Como ela estava cheia de seus próprios problemas quando havia acabado de chegar à casa de Kiyoka, não havia espaço em seu coração para considerar o que seu parceiro estaria pensando. Então achei que, até seu sentimento por Kiyoka chegar ao “amor”, levaria algum tempo.

 

– A Miyo também tem crescido aos poucos, passando a conseguir expressar seus próprios pensamentos e agir em prol de alguém, porque aumentou seu contato com outras pessoas, não é?

 

Lá para o começo da história não há muito essa impressão, mas eu criei a Miyo como uma personagem obstinada, que diz as coisas de forma clara, uma mulher de essência forte. Na verdade, ela mesma não percebe, mas o fato de conseguir aos poucos ver por si mesma o que gostaria de ter dito em ocasiões passadas faz parte de seu crescimento atual.

 

– O que você considera importante no processo de crescimento das pessoas?

 

Relacionar-se com outras pessoas além de si mesmo. A Miyo, excetuando-se o período em que frequentou o Ensino Fundamental, não teve muito contado com pessoas do mundo externo e, estando cercada por pessoas que a menosprezavam continuamente, só conseguia pensar que não valia nada; por isso sentia como se o tempo estivesse parado ali. Então eu acho que existe isso de você vir a enxergar a si próprio através do estabelecimento de relações com outros.

O componente sobrenatural é o tempero do drama

– Você introduziu nesta obra a habilidade sobrenatural chamada “dom para ver demônios” em que os personagens conseguem ver demônios e espíritos. Qual o charme desse componente de fantasia?

 

Há opiniões de quem acredite que o componente sobrenatural não era necessário, mas eu acho que eles se tornam o tempero do drama. Um enredo que só tenha amor normalmente é interessante também, mas já não há muitas obras maravilhosas com histórias de amor que têm por palco os períodos Meiji e Taishō e não contêm elementos de fantasia como “Haikara-san ga Tōru”? Como eu li bastantes “light novels”, tinha o pensamento de que seria interessante se a história tivesse ação, poderes sobrenaturais e uma organização mais chamativa.

 

Versão em mangá de "Meu Casamento Feliz"

– Pessoas que gostam de fantasias, pessoas que gostam de histórias de amor... é uma obra na qual se pode entrar de diversos ângulos. E ela está se expandindo por diversos formatos, com quadrinização, leitura dramática etc.

 

O que eu escrevi está sendo transformado por diversas mãos em várias franquias de mídia. Através disso, eu verei lados diferentes da minha obra e a profundidade dela que não tinha percebido por mim mesma antes, não é?

 

– O casamento deles está sendo preparado para acontecer na primavera. Mas parece que ainda há questões a serem resolvidas e obstáculos a serem superados. Que tipo de episódios estão escritos no volume mais recente, o quinto?

 

No quinto volume, uma religião do sobrenatural que tem a Miyo por alvo vai se tornar ativa, então a sensação de urgência continuará. E a natureza da relação entre Miyo e Kiyoka vai mudar um pouco? Parece que vai mudar? Eu escrevi objetivando esse tipo de cena que faz o coração palpitar, então ficaria feliz se vocês aguardassem ansiosamente o desenvolvimento da história daqui em diante.

POSTAGENS MAIS VISITADAS