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sábado, 16 de dezembro de 2023

ARTIGO ESPECIAL: HAGIO MOTO E KANNO AYA CONVERSAM SOBRE MANGÁS HISTÓRICOS E PROTAGONISTAS MULHERES

Ano passado, o Comic Natalie promoveu um bate-papo muito especial entre Hagio Moto a Kanno Aya para comemorar o lançamento do primeiro volume do spin-off de Baraou no Souretsu, chamado Ouhi to Bara no Kishi. A conversa ficou bem grande, mas é fundamental ter a tradução dessas coisas em português para compreender melhor o universo do shoujo mangá. Por isso, resolvi traduzir. O link para o texto original em japonês está aqui. As imagens são todas de lá. A chamada inicial do texto fala sobre a amostra grátis do capítulo inicial do spin-off que o site colocou. Se quiserem tentar ler em japonês ou só apreciar as imagens dele, é só clicarem no link.

 

CONVERSA ESPECIAL: KANNO AYA E HAGIO MOTO

A diversão e a dificuldade ao desenhar obras históricas e protagonistas femininas

Baraou no Souretsu - a obra de Kanno Aya, que a fechou em janeiro deste ano (N. T.: 2022) após atravessar aproximadamente 9 anos de serialização. Atualmente, está sendo publicado na revista Gekkan Princess (editora: Akita Shoten) o mangá Baraou no Souretsu – Ouhi to Bara no Kishi, o qual joga luz sobre a vilã rainha Margaret, que também apareceu em Baraou no Souretsu.

O Comic Natalie, para comemorar o lançamento do primeiro volume deste spin-off, arranjou um bate-papo entre Kanno e aquela que influenciou sua obra: Hagio Moto. Foram conversadas coisas como o charme que Hagio sentiu em Baraou no Souretsu, os bastidores da obra de Kanno, a identificação mútua delas com a diversão e as dificuldades na hora de fazer obras históricas e mulheres protagonistas, dentre outros assuntos.  Além disso, ao final deste artigo especial, está publicada uma amostra grátis do primeiro capítulo de Baraou no Souretsu – Ouhi to Bara no Kishi, então gostaríamos que quem estiver interessado também o chequem.

Coleta de dados – texto: Kozue Aou

 

- Mais interessante do que Shakespeare!? A razão pela qual Hagio Moto fez um elogio empolgado assim é... -

 

- Parece que a Hagio-sensei leu a serialização de Baraou no Souretsu desde que o mangá começou.

Moto Hagio: É isso mesmo. Eu ficava absorvida na leitura porque ela é interessante.

 

Aya Kanno: Fiquei profundamente emocionada quando ouvi o rumor de que a Hagio-sensei estaria lendo minha obra. Quando o terceiro volume estava para sair, meu editor pediu que a sensei escrevesse um comentário para o mangá. Mas eu nunca imaginei que realmente faria isso!

 

Hagio: Eu escrevi “É mais interessante do que Shakespeare!”, não foi? (Fonte)


Kanno: Muito obrigada (risos). 

Hagio: Há uma boa razão para eu ter escrito isso. Como eu sempre gostei de obras históricas, lia várias delas. Porém não entendi patavinas da peça Ricardo III de Shakespeare. Isso mesmo tendo compreendido Rei Lear e Hamlet. Mas quando reli Ricardo III depois de Baraou no Souretsu, entendi muito bem.

 

Kanno: Eu também (não entendi no começo). Vi primeiro a peça Henrique VI produzida por Yukio Ninagawa. Embora seja sobre Henrique VI, a história começa a partir de Henrique V, então fiquei perdida. Eu desenhei com cuidado para que fossem lembrados os nomes dos personagens que aparecessem, sem esquecer dessa sensação que tive assistindo pela primeira vez.

 

Hagio: Acho que eu também vi as montagens dessa época. A que eu vi foi Henrique VI que Hitoshi Uyama produziu em 2009 no Novo Teatro Nacional de Tóquio, se não me engano. A que você viu produzida por Ninagawa tinha a Shinobu Otake nos papéis de Joana, a donzela, e Margaret?

 

Kanno: Essa mesma. A Shinobu Otake estava no papel de Margaret.

 

Hagio: Como, antes de ver a peça, eu já tinha assistido ao filme inglês Henrique V com Laurence Olivier, pensei “Ah, é a continuação daquele filme”. Mas mesmo assim fiquei bem confusa. Obras históricas são difíceis, não são? Porém, Baraou foi desenhada sendo muito bem pesquisada, né? Creio que os pontos principais estão muito bem colocados. Você é formada em História?

 

Kanno: Imagina! Eu sou apenas uma otaku de História.

 

Hagio: Os otakus são sempre quem ganham mais (risos).

 

Kanno: No começo, eu gostava de História do Japão. Passei a gostar de obras históricas por causa dos Shinsengumi.

 

Hagio: O mangá que você desenhou sobre eles, Hokusou Shinsengumi, é bem legal. Está cheio de homens bonitos.

 

Kanno: Não importa o que eu faça, os mangás acabam ficando assim (risos). Fiquei extremamente feliz quando soube, lendo em algum artigo, que a sensei gosta do Shinsengumi de Osamu Tezuka-sensei. Eu sendo alguém que também gosta deles. Também cresci lendo os mangás do Tezuka-sensei.

 

Hagio: Ah, é?

 

Kanno: Como em casa havia os mangás Hi no Tori e Mensagem para Adolf, leio desde pequena.

 

Hagio: É uma boa casa, né? Uma casa que tem mangás é uma boa casa (risos).

 

- Sobre qual é a graça de entender personagens históricas trabalhando a imaginação –

 

- Qual teria sido o motivo que fez a Kanno-sensei virar fã da Hagio-sensei lá no início?

 

Kanno: Meu primeiro encontro com uma obra dela foi Poe no Ichizoku. Li uma cópia que uma pessoa que trabalhava como tutora para minha família emprestou para meu irmão mais velho. O primeiro mangá dela que eu comprei foi Zankokuna Kami ga Shihai Suru. É uma obra que reli diversas vezes. Foi um dos que escolhi quando pensei em usar alguns mangás como guia antes de começar a desenhar Baraou. A personagem Joana D’arc recebeu influência da imagem de Greg que aparece como fantasma após ter morrido em Zankokuna Kami ga Shihai Suru. 

Hagio: Joana é uma personagem fascinante. Ela sussurra no ouvido de Ricardo o que não gostaria de ouvir. Ela mostra as profundezas da psiquê de Ricardo, né?

 

Kanno: Eu gostava muito dessa imagem enigmática e desagradável do espírito do Greg flutuando. Queria experimentar desenhar uma existência assim. Eu cresci sem ter muito contato com shoujo mangás. Após me tornar adulta, de repente parei para prestar atenção neles e comecei a ler vários e a sensei é realmente minha inspiração. Seu estilo cobre uma diversidade de tópicos e todos eles são interessantes. As histórias também me atraem, mas eu uso como inspiração a sua forma de construir os quadros e o seu desenho de cenários. Claro, antes disso eu me divirto enquanto uma de suas leitoras. Parece um sonho que alguém com uma existência tão superior assim tenha contribuído com uma ilustração em tributo para o meu fanbook.

 

- Foi impressionante o desenho que a Hagio-sensei fez com os vários personagens para o fanbook oficial de Baraou no Souretsu (fonte) – 

Hagio: Todos os personagens são muito interessantes. Pelos rostos deles, seus papéis na história ficam gravados na nossa cabeça. O rosto de Warwick parece o do Al Capone, né? Mas, como é de se esperar, a personagem Ricardo é a mais interessante. De qualquer forma, as relações entre pais e filhos de nenhum deles é boa (risos). Ricardo é uma pessoa tão odiada por sua mãe. Falando nisso, a Margaret. Em Baraou no Souretsu – Ouhi to Bara no Kishi, ela se torna a protagonista e nós entendemos qual era sua situação. Vindo da França, ela era azucrinada na época em que tinha acabado de entrar para a família real da Inglaterra. Porém, tendo personalidade forte, ela dá na cara da outra pessoa.

 

Kanno: Era uma cena que eu queria muito desenhar.

 

Hagio: Se você conhecer a jovem Margaret pelo spin-off e reler mais uma vez Baraou no Souretsu, entende-se muitas coisas.

 

Kanno: A posição de rainha é difícil, né? Fundamentalmente, não há muito espaço para manobra. E também há muitos casos em que não se está ligada diretamente ao fazer político. Quando a sensei desenhou Ouhi Margot, não foi difícil? Não é como se a Margot tivesse um objetivo definido.

 

Hagio: É verdade. Eu estava sempre elucubrando sobre a razão pela qual ocorreu o Massacre da Noite de São Bartolomeu e a deixa para começar Ouhi Margot foi achar que conseguiria entender se desenhasse esse mangá, mas não consegui entender muito os sentimentos da própria Margot. Eu costumo conversar com meus personagens enquanto escrevo. “Por que você está fazendo uma coisa dessas?” Por mais que perguntasse para a Margot, ela não me respondia muito (risos).

 

- Por mais que estejam escritas em documentos as ações de personagens históricas, não dá para saber o que eles estavam sentindo –

 

Kanno: Se pensar bem, às vezes consigo saber onde uma pessoa estava em determinado momento sem pesquisar. E, ao verificar, descubro que estava correta. Ao passar muito tempo com alguém, aos poucos você talvez consiga vir a entender o que ela faria em determinadas circunstâncias.

 

Hagio: Você atravessa o tempo e entra em sincronia com a pessoa, né?

 

Kanno: Qual foi a razão para ter traído? Qual foi a razão para sua morte? Há muitas coisas cuja verdade não se sabe bem. É aí que está a abertura para poder usar a imaginação livremente. Desenhar baseado em personagens reais enquanto expande a imaginação é onde está a diversão de se fazer obras históricas. Se você pensasse por si mesma do zero, talvez algum tipo de personagem não tivesse nascido. Enquanto está pesquisando fatos históricos, você adota um comportamento como se estivesse indo além das fronteiras de sua imaginação.

 

Hagio: É nessa falta de liberdade incomparável com o nosso pensamento que está a diversão das obras históricas. Há também muitas vezes em que se pensa “Por que você está fazendo uma coisa destas!?”

 

Kanno: No padrão típico do shoujo mangá, quando alguém vira rainha, nós temos o final feliz, mas a realidade não ocorre tão bem assim. Com Ouhi Margot também é esse o caso, não é? 

Hagio: Na vida real um rei tem muitas amantes. Bem, a Margot também fazia o que lhe dava na telha (risos).

 

Kanno: Mas esse aspecto de não ser feliz porque se virou rainha é interessante.

 

Hagio: É difícil ser rainha, não é?

 

Kanno: Não se sabe quando se pode ter o pescoço cortado etc. Eu acho que uma mulher definitivamente não deveria se tornar rainha!

 

Hagio: Sabe, quando eu terminei Ouhi Margot, cheguei à conclusão que eu realmente não consigo desenhar mulheres. Quando coloco uma mulher como protagonista, sempre acabo pensando se posso fazê-la tomar determinadas atitudes sendo mulher. Em caso de obras históricas, há especialmente o pano de fundo da época a ser considerado também. Esse é um outro ponto que não dá para contra-atacar.

 

Kanno: De fato, quando é uma personagem feminina, em obras históricas você acaba se preocupando especialmente com as limitações do que ela pode fazer. Mesmo querendo colocá-la se movendo à frente dos acontecimentos, é preciso fazê-la agir nas sombras.

 

Hagio: A Margot é uma mulher que amou muitos homens, mas mesmo assim não dá para dizer completamente que ela desfrutava de liberdade total. Não importa o que acontecesse, havia a posição fragilizada da qual ela não conseguia se livrar enquanto mulher. Mesmo gostando de outra pessoa, ela não conseguiu ir contra o casamento escolhido por seus pais.

 

Kanno: Era uma época em que, se nós não fizéssemos isso, não dava para viver né? Em obras históricas, é preciso que se pense o que você faria se fosse uma pessoa daquele período. O que achei interessante pesquisando foi o lado religioso. Nessa época, a forma de pensar dos cristãos, ou melhor, dos católicos estava na base de tudo. Se você não entende isso, não há como conseguir compreender todos os motivos. Mas se, ao contrário, você conseguir entender isso, então compreenderá tudo.

 

- O coração da rainha Margaret é lido no spin-off

 

- Desde quando você vinha planejando o spin-off Baraou no Souretsu – Ouhi to Bara no Kishi?

 

Kanno: Quando estava me aproximando do fim de Baraou, senti que os leitores também podiam querer ler mais um pouco desse mundo. Esta é uma obra que eu própria desenhei com muito gosto e creio que com ela consegui colocar coisas que não tinha podido apresentar nas obras que fiz até aqui. Além disso, como não tinha conseguido desenhar o interior emocional das personagens femininas, isso me incomodava, então pensei em fazer isso com um spin-off. Eu também tenho dificuldade em desenhar personagens femininas, e nas obras serializadas que fiz até aqui nunca tive nenhuma protagonista, mas achei que desenhando Ricardo que tem ambos os sexos, agora eu acho que conseguiria desenhar uma protagonista mulher.

 

Hagio: A Margaret é uma mulher forte, não é? Como seu marido, Henrique VI, não consegue fazer nada, ela precisou tomar a liderança da família real. Apesar de ser mulher, ela foi aos campos de batalha e guerreou. Mas seu filho Eduardo foi assassinado... Eu ficava pensando que foi uma vida bastante terrível. No primeiro volume de Baraou no Souretsu, ela tira seu relicário e diz “William”. Ele é o Suffolk que está desenhado neste spin-off, né? 

Kanno: Pelos fatos históricos, comparado com a Margaret, ele é alguém muito mais velho. Fiquei me martirizando se deveria transformá-lo em um tiozão bonitão. Mas é um personagem que passará por muitos acontecimentos daqui em diante, e eu fiquei incomodada com a diferença de idade em relação a ela, que era uma garota. Então eu acabei tornando-o mais jovem (risos).

 

Hagio: Eu experimentei pesquisar um pouco sobre a Margaret. No fim, ela voltou para a França, não é?

 

Kanno: Acho que, apesar de ter virado rainha da Inglaterra, ela talvez tivesse uma consciência muito forte de ser francesa. Ouhi to Bara no Kishi começa com uma cena em que a avó da Margaret aparece e lhe entrega um livro. A ideia é que esse livro foi escrito por Cristina de Pisano.

 

Hagio: Quem era ela?

 

Kanno: Pisano era uma espécie de protofeminista. Há um livro que ela escreveu em seus últimos anos de vida sobre Joana d’Arc e, como a avó de Margaret era fã de Joana d’Arc, pensei que não seria estranho se ela tivesse esse livro. Com este trabalho, achei que seria bom se eu conseguisse tocar também em uma temática feminista. 

Hagio: Ah, isso é bom. Não é simplesmente uma relíquia de família que foi entregue, mas também há um sentido no livro em si. Mas existiu uma mulher que escreveu sobre feminismo há tanto tempo assim...

 

Kanno: Eu li um livro escrito sobre Pisano e o conteúdo dos argumentos das correntes contrárias às feministas não mudou muito em relação ao tempo atual.

 

Hagio: É um problema de raízes profundas, né?

 

Kanno: Falando por mim, mesmo agora eu escuto bastante coisas como “Essa é uma obra do ponto de vista feminino” ou “Você conseguiu escrever essa fala porque é uma autora mulher” e fico pensando “Hã?”

 

Hagio: Entendo o que você quer dizer. Falando de outra forma, os homens que dizem esse tipo de coisa existem aos montes com esse sentimento de negligência. Você pensa “por que eles não prestam atenção nesses pontos?”

 

Kanno: Ah, é exatamente isso!

 

Hagio: Claro, não são apenas homens que falam dessa forma. Mas o fato de homens conseguirem não sentir incômodo mesmo deixando de notar essas coisas não viria justamente de eles estarem em uma posição superior socialmente? É muito forte dizer que mulheres percebem porque estão em uma posição fraca, mas se nós não mergulharmos nos mínimos detalhes e refletirmos sobre eles, não há como sobreviver. Creio ser por isso que nós conseguimos perceber os detalhes. Quando um homem que não consegue perceber essas coisas fala “É um ponto de vista feminino”, dá vontade de retrucar (risos).

 

Kanno: Por exemplo, sobre a fala de uma mãe já me disseram que consegui escrever aquilo por ser uma mulher que pode dar à luz crianças. Mas eu não tenho filhos nem sou casada. Se mesmo assim eu consigo desenhar uma mãe, certamente um homem também consegue. Eu normalmente converso com amigas próximas que têm crianças e desenho tentando imaginar o que elas sentem. Isso é algo que se você fizer uma observação séria, vai entender.

 

Hagio: Essa frase é boa! “Se fizer observação, vai entender”.

 

Kanno: Será que eles não estão ignorando o ato de observar? Há homens que dizem coisas como “As mulheres são seres misteriosos”, mas é justamente porque não têm nem vontade de observar como são as mulheres que eles acabam reduzindo a isso. Eu até que entendo os sentimentos dessas pessoas, de querer ficar livre, de gostar de seu trabalho e de possuir bastante desejo de ter sucesso na vida. Eu também sou mais do time dos que entendem os sentimentos da nobreza arrogante que aparece bastante em Baraou (risos). Por isso tenho a sensação de que, se estivesse nessa posição, também pensaria dessa forma.

 

Hagio: Muitos homens têm essa mentalidade forte de que eles precisam vencer neste mundo, não é?

 

Kanno: Acho que eu própria sou do tipo que tem um sentimento forte de querer vencer em algo. Por isso, também em um sentido social, talvez tenha sido fácil desenhar Ricardo que está entre dois sexos. Por outro lado, Henrique VI, em certo sentido, é o que eu penso “Isto é que é um homem”.

 

Hagio: Henrique VI é um personagem muitíssimo interessante. Ele é um cristão devoto e disse odiar guerrear. Embora todo mundo estivesse banhado em sangue e fazendo guerra, ele fugiu dizendo que queria virar um pastor de ovelhas (risos).

 

Kanno: Através de Henrique VI, perguntei-me se não conseguiria desenhar as dificuldades do lado masculino. Eu quero desenhar isso também no spin-off.

 

Hagio: Ah, estou ansiosa para ver. Nas obras desenhadas por homens, as dores deles não aparecem muito, não é?

 

Kanno: Há também muitos que odeiam o Henrique dizendo “É vergonhoso querer fugir de sua própria posição de rei”. Fico pensando se talvez não seja precisamente dentro dessas pessoas que exista um Henrique (risos).

 

- O pensamento de querer fortemente escrever os sentimentos das pessoas que viveram um período de agitação –

 

- Há algo que a Kanno-sensei mantenha em mente ao desenhar uma obra no terreno dos shoujo mangás?

 

Kanno: Acho que é mostrar que o objetivo dos shoujo mangás não é só colocar amores dando certo. Isso é algo que você sente mesmo lendo as obras da Hagio-sensei, mas eu própria, não apenas enquanto leitora, mas também enquanto alguém que desenha shoujo mangás, passei naturalmente a gostar desses outros tipos de história. Claro, eu não estou negando as histórias cujo objetivo seja mostrar amores dando certo.

 

Hagio: Não importa o que você escolha como tema para desenhar, o shoujo mangá precisa ser bonito.

 

Kanno: A indumentária de Ouhi Margot é ótima. Parece que eu estou realmente vendo os vestidos daquela época, mas a sensei desenhou de forma bastante fiel?

 

Hagio: Há coisas que usei como modelo, mas como as imagens ficariam muito poluídas visualmente, eu também fiz algumas simplificações. Como na época de Margot as pessoas enfatizavam o quanto eram ricas através de suas vestimentas, havia vestidos com 40 pérolas penduradas. Você não consegue fazer nada por causa do peso, né? Golas grandes também estavam na moda.

 

Kanno: Eu dei uma bela adaptada na indumentária.

 

Hagio: As roupas de Ricardo são bem legais.

 

Kanno: Como o design no começo estava muito ao estilo de shounen mangás de lutas, corrigi mantendo em mente que queria expressar as coisas através de um shoujo mangá. Eu pensei que em shoujo mangás, mesmo se você estiver no meio de uma batalha, deve-se desenhar as emoções de maneira forte. Talvez seja difícil desenhar as emoções ao tocar em vários assuntos se não for em shoujo mangá. Talvez essa seja uma parte que fica omitida em mangás shounen. Mas, claro, eu também quero que homens leiam. 

Hagio: Talvez seja assim mesmo. Foi lançado o primeiro volume de Baraou no Souretsu – Ouhi to Bara no Kishi. Eu estou ansiosa para saber que tipo de destino haverá e como você irá desenhá-los. Como no período da Guerra das Rosas havia caos – com o poder indo para cá e para lá –, acho que é uma tarefa realmente difícil, mas estarei esperando.

 

Kanno: Muito obrigada! Hum... queria só pedir uma coisa por último. A Hagio-sensei não teria nenhum plano de desenhar os Shinsengumi, não é? Penso que seria certamente muito bom se conseguisse ler uma história deles no seu traço.

 

Hagio: Oi!? É impossível (risos). Teria que estudar desde a forma de segurar as katanas...

 

Kanno: Acabei falando por conta da minha felicidade em conseguir encontrá-la. Claro, eu aguardo ansiosamente qualquer obra que a Hagio-sensei faça, não importa sobre o quê. Sou grata pela oportunidade que me deu de fazer esta conversa.

 

Hagio: Eu é que agradeço. Também me diverti.

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

ENTREVISTA: ELENCO DE HIS ~ KOI SURU TSUMORI NANTE NAKATTA FALA SOBRE A SÉRIE E LGBTS

Em 2019, a Nagoya TV lançou um BL em cinco episódios chamado His ~ Koi Suru Tsumori Nante Nakatta. Não encontrei nenhuma informação sobre, então não sei se é baseado em mangá. Porém, como estou traduzindo material sobre BL, quis deixar algo sobre essa série aqui.

Procurando, só consegui encontrar uma única entrevista, publicada no site oficial (link aqui) com quatro questões (na verdade, são mais tópicos a serem comentados) para o elenco principal. E, a meu ver, as respostas ficaram bem repetitivas. Quis traduzir mais pela pergunta sobre ser um dorama com tema LGBT. Nessa parte, as respostas foram interessantes.

Para quem não sabe, em 2020 saiu um filme continuando a história do par protagonista, sobre o qual, aí sim, há várias matérias. Pretendo traduzir alguma coisa sobre o longa-metragem, mas confesso que assisti e não gostei. Então, por enquanto, deixarei só isso por aqui.

Falando sobre a série, vi algumas pessoas reclamando, mas eu pessoalmente gostei. É um dorama singelo, desses que se passam no interior ou, como é o caso aqui, no litoral. E há um erotismo sútil – vide a cena em que Nagisa vê os músculos das costas de Shun se movendo ou quando aquele sente o cheiro do perfume do shampoo deste enquanto ele dorme - que me conquistou.

Enfim, segue a tradução. As fotos também são todas do site oficial.

 

ENTREVISTA COM ELENCO DE HIS ~ KOI SURU TSUMORI NANTE NAKATTA 

Kusakawa Naoya (personagem: Igawa Shun)

- Após o fim das gravações

Estava ansioso porque é a primeira vez que gravo um dorama. Além disso, havia a pressão por ser parte do elenco principal, porém consegui conversar com os diretores Imaizumi e Nakazato sobre como iria interpretar Shun e creio ter conseguido fazer do jeito que eu gostaria. O local de gravação foi muito acolhedor, consegui me tornar amigo de todo o elenco e foi um lugar muito bom para se estar.

 

- Sobre estrelar a série junto com outra pessoa

Foi realmente bom que meu parceiro de cena fosse o Kura. Para falar a verdade, quando nós nos conhecemos, não conversamos nem um pouco um com o outro. Por algum motivo, ele confundiu meu sobrenome, Kusakawa, com Saka no Ue... (risos) Fiquei me perguntando se aquilo daria certo, mas agora nós ficamos muito amigos (risos). A ponto de chamarmos um ao outro para comer ou fazer compras. Foi realmente muito bom que ele se tornasse meu parceiro de cena.

 

- Sobre aparecer em um dorama de temática LGBT

Devido a se tratar de algo sobre o qual eu não tenho experiência, foi muito difícil. Como não é uma coisa que dê pra interpretar de forma leve, enfrentei as gravações estudando seriamente através de livros e filmes. Acho que consegui ter uma boa experiência.

 

- Mensagem para os telespectadores

Gostaria que o público visse a mudança nos sentimentos dos personagens, que são puros e às vezes dá parar chorar, às vezes, rir. Além disso, também vale à pena ver que rumo tomarão os amores da Chika e da Ako. Gostaria que as pessoas vissem, sem falta. 

Kura Yuki (personagem: Hibino Nagisa)

- Após o fim das gravações

Ao finalizar a última gravação, pensei “poxa, já acabou...” e me senti solitário.

 

- Sobre estrelar a série junto com outra pessoa

Como foi a primeira vez que me envolvi com uma obra enquanto protagonista, criei uma forte ligação emocional com ela. Os diretores Imaizumi e Nakazato são pessoas que se aproximam dos outros de forma muito calorosa e dei muito valor ao tempo que usamos para trocar opiniões e fazer consultas sobre o roteiro. Penso que conseguimos gravar em um ambiente muito abençoado.

 

- Sobre aparecer em um dorama de temática LGBT

O Nagisa é alguém que tem um passado que quer esconder, é sensível e mede bem quais palavras usa. Sinceramente, eu não sabia como interpretá-lo direito, mas achei que, se deixasse para a maquiagem, o figurino e o ambiente onde iríamos gravar, conseguiria fazê-lo. Através das gravações, senti profundamente que o sexo de alguém não importa quando nós nos apaixonamos.

 

- Mensagem para os telespectadores

Gostaria que não apenas fãs de BLs, mas um número grande de pessoas visse essa obra. Por favor, vejam sem falta. 

Shida Sara (personagem: Kumakiri Chika)

- Após o fim das gravações

A gravação acabou em um piscar de olhos. Desta vez, havia muitas pessoas da equipe com quem eu já havia trabalhado algumas vezes antes, então, desde o primeiro dia, consegui ficar tranquila e gravar me divertindo muito. Agora que as gravações acabaram, estou me sentindo solitária.

 

- Sobre aparecer em um dorama de temática LGBT

Como é um assunto com o qual não tenho experiência, foi algo difícil de entender. Estudei pesquisando através de filmes e livros. Aprendi que não posso supor ser a minha vivência algo universal. Acho que conseguir encontrar uma obra como essa me permitiu crescer como ser humano.

 

- Mensagem para os telespectadores

Como a obra ficou maravilhosa, ficaria feliz se muitas pessoas vissem o resultado. Peço a cooperação de vocês. 

Kuribayashi Aino (personagem: Hirahara Ako)

- Após o fim das gravações

Foi uma gravação que realmente terminou num piscar de olhos e me senti solitária após o seu fim.

 

- Sobre aparecer em um dorama de temática LGBT

Devido a haver pessoas LGBTs ao meu redor, embora não possa dizer que tenha entendimento sobre isso, não me senti desconfortável. Antes das gravações, eu fiquei o tempo todo vendo livros e filmes LGBTs. Eu gostaria que pessoas que sentem desaprovação em relação a LGBTs vissem esta obra. Creio que sua forma de pensar mudará.

 

- Mensagem para os telespectadores

Nós gravamos em Enoshima nos divertindo muito. Por favor, assistam divertindo-se também, pessoal.

sábado, 9 de dezembro de 2023

ENTREVISTA: SAITO CHIHO (PARTE 2)

Segue a segunda, e última, parte da entrevista. A original pode ser lida neste link. Lembrem que ela foi feita em 2017, antes da Saito Chiho começar Kaguya Den. E quero alertá-los que não sei a razão pela qual elas chamam literatura de obras históricas. Talvez seja por mostrarem costumes do passado...

 

Entrevista com a mangaká Chiho Saito

 

Parte 2

 

- O ponto de virada para escapar de sua crise foi uma biografia de Pushkin? –

 

- E então nós entramos finalmente nos anos 2000. Que tópico se tornou uma memória mais profunda para você?

Saito: Quanto a isso... Na verdade, nesse momento eu entrei em um período de crise bastante longo. Estava extremamente ocupada com minha serialização e a transmissão do animê e, além disso, havia ganhado o Shogakukan Manga Award por Kanon, então muitas coisas tinham alcançado o pico e isso me causou burn out. Mesmo sem encontrar assuntos que quisesse desenhar, eu continuava com as serializações, mas, para ser sincera, não conseguia me envolver e, não importa o que fizesse, o resultado não ficava interessante. Por isso, e até para me renovar completamente, mudei da Petit Comic para a Gekkan Flowers (na época: Petit Flower).

 

- Então foi essa a razão da sua transferência. Mudando a revista em que publicava, você conseguiu escapar da sua crise?

Saito: Enquanto desenhava Anastasia Club, minha primeira serialização nessa revista, meu editor me passou uma biografia de Pushkin dizendo-me que ele era uma pessoa interessante e, quando experimentei ler, percebi que era verdade. Ele tentou me incentivar dizendo que o Pushkin duelava (risos).

 

- Isso está relacionado com sua próxima obra, Bronze no Tenshi, não é?

Saito: Isso. Tendo feito balé quando era criança, a Rússia era um país de que gostava muito e eu li muitos livros de literatura russa como Guerra e Paz. Então eu parei Anastasia Club temporariamente e comecei Bronze no Tenshi. Com esse mangá eu consegui me envolver bastante e senti que escapei da minha crise.

 

- Por que você conseguiu se envolver?

Saito: Primeiro porque a vida de Pushkin era extremamente interessante. Além disso, os homens e mulheres de minhas obras no geral apaixonam-se assim que se conhecem, mas a heroína desta obra, Natália, não gostava muito de seu marido Pushkin e seu primeiro amor foi Dantes, que aparece depois de seu casamento, sendo esse um padrão que nunca havia desenhado, então isso também trazia um frescor.

 

- Natália é uma personagem reservada e quieta, um tipo de heroína raro nas suas obras, não é?

Saito: As pessoas frequentemente me dizem que as protagonistas desenhadas por mim são sempre arrojadas (risos), mas a Natália é uma heroína única, da qual falam mal: “Ela é bonita, mas idiota”.

 

- Foi importante você conseguir desenhar uma história e personagens que não tinha feito até então?

Saito: Acho que se um mangaká enjoa de si mesmo, é o fim para ele. Porém, se você desenhar por um longo tempo, certamente haverá um período em que você enjoará de algum ponto do seu estilo. Algo como “por que meus mangás sempre têm esse tipo de desenvolvimento?”. Mas acho que, nesse momento, se você continuar sem desistir, conseguirá encontrar novamente um novo-eu e fará novas descobertas. Sou grata à editora por eles terem me dado um lugar para desenhar sem parar.

 

- Com Torikae Baya, eu quis transmitir a maravilha de uma tradição imutável –

 

- Após Bronze no Tenshi, você desenhou com bastante animação, não é?

Saito: É mesmo. Nessa época, passei a considerar um pouco mais minha idade e condições físicas e, já que não dava mais para desenhar com uma fonte inesgotável de energia, passei a fazer mangás para não deixar nenhum remorso, mesmo que minha próxima obra fosse a última. A minha criação seguinte, Ice Forest, tinha por tema a patinação artística, algo que eu amo há muito tempo, porém há muitas obras-primas sobre esse tema, então eu hesitava em tratar sobre ele. Mas eu achei que se não deixasse desenhado naquele momento, não conseguiria fazê-lo nunca mais. Shishaku Valmont ~ Kikenna Kankei ~ também, a verdade é que eu queria que alguém transformasse o livro em mangá, mas como parecia que ninguém o faria, decidi desenhar eu mesma (risos).

 

- Continuando, nós abordaremos agora sua serialização atual, Torikae Baya. Por que você pensou em desenhar uma obra histórica japonesa?

Saito: A deixa foi o Grande Terremoto do Leste do Japão. Na época, eu pensei que Tóquio também fosse perigosa, por isso aluguei um apartamento em Kyoto e comecei a passar um tempo lá de vez em quando. Então, ao experimentar explorar cuidadosamente a cidade, percebi que havia História aonde quer que fosse e pela primeira vez tive consciência clara de eu mesma ser japonesa. Ao mesmo tempo, embora eu desenhasse bastante a História e a cultura ocidentais, senti fortemente como, no geral, eu não sei nada sobre o Japão. Além do mais, diferente do estrangeiro, senti verdadeiramente como muito dos costumes e da cultura do Japão têm continuado ininterruptamente desde os tempos dos mitos e minha vontade de desenhar coisas do Japão aumentou. Pensei que seria bom se eu consegui transmitir ao menos um pouco com mangá a maravilha de uma tradição imutável que me emocionou.

 

- Torikae Baya é uma obra cujo palco nasceu precisamente na cidade de Kyoto, não é?

Saito: Isso. Mesmo agora eu ainda faço o roteiro e o esboço (dos capítulos) às margens do rio Kamogawa.

 

- Que elegante (risos). Houve alguma razão para você escolher o período Heian como palco?

Saito: Foi o período em que muito da cultura tradicional japonesa estabeleceu-se, as roupas são elegantes e, acima de tudo, o penteado das mulheres não é fofinho? 

- Como esperado, o aspecto visual é importante, né?

Saito: Há muitos casos em que me decido por algo pelo visual. VS Lupin, que estou publicando concomitantemente, também foi escolhida assim, pois eu gosto da moda do período, especialmente de chapéus cartolas e de capas.

 

- Fiquei um pouco surpresa por você usar Lupin como tema.

Saito: Desde que vi o filme Arsène Lupin – O Ladrão Mais Charmoso do Mundo, feito para comemorar os 100 anos do nascimento do personagem, pensei que talvez ele também fosse bom como material. Como nessa época meu editor, coincidentemente, sugeriu-me que fizesse novamente algo sobre a França, pensei “já que é assim...”. Eu até que utilizei a obra original como base, mas a reestruturei para virar shoujo mangá, refazendo-a para colocar ênfase no fator romance.

 

- Entendi. Torikae Baya também está no clímax, mas e a próxima obra, você já pensou em uma concepção para ela?

Saito: Ainda não pensei em nada. Toda vez me pedem uma amostra do meu próximo trabalho assim que termino uma serialização, mas sempre entro em dificuldades por nunca ter nada em estoque (risos). Eu só posso dizer que tenho vontade de desenhar mais um pouco obras que têm por palco o Japão antigo.

 

- O entusiasmo com obras históricas vem da expressão do desejo de mudança que as mulheres têm –

 

- É uma pergunta meio boba, mas de onde vem o seu entusiasmo em relação a obras históricas?

Saito: Acho que talvez venha do meu forte interesse por padrões. Por qual tipo de processo uma cultura e um padrão nascem? Como fico com vontade de saber o drama por trás das cortinas, adapto meus próprios personagens dentro do padrão de várias épocas e países e adoro ficar viajando ao pensar como eles viveriam.

 

- Você própria tem uma experiência simulada através de seus personagens, né?

Saito: Isso. Se forem mulheres, talvez seja a expressão do desejo de mudança que todas têm. Uma certa época qualquer de um país estrangeiro é algo fora no comum, é como as apresentações de balé de minha mocidade em que eu subia em um palco todo iluminado. Eu própria já não consigo ir para um mundo fora do comum, mas consigo fazer meus personagens irem.

 

- Aguardarei ansiosamente sua próxima obra também. Falando nisso, a próxima não será a última, né?

Saito: Ahaha. Já faz mais de 10 anos que eu fico empolgada com a possibilidade de minha próxima obra ser a última. Como fisicamente eu ainda não tenho nenhum problema, acho que consigo continuar desenhando nesse ritmo por um tempo. Mas preciso dizer que já aconteceu uma vez de um dia minha mão parar completamente de se mexer.

 

- Hã? Isso é assustador, não é?

Saito: Recuperei-me logo, mas o que me surpreendeu mais do que isso foi o fato de não ter ficado triste por dentro. Pensei que havia conseguido me esforçar bastante até aquele momento e entendi também que, independente de quando parasse de desenhar, eu não teria arrependimentos. É exatamente por isso que agora, neste instante, sinto que não tenho escolha a não ser fazer aquilo que consigo.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

ENTREVISTA: SAITO CHIHO (PARTE 1)

Em 2017, SaitoChiho deu uma entrevista para a revista Febri (original aqui), a qual foi colocada no site da publicação em 2021. Vire e mexe, procuro e encontro essas preciosidades, mas quase nunca traduzo. Como foi uma conversa muito interessante e estou tentando pegar firme e publicar mais esse tipo de coisa, segue aqui a tradução da primeira parte.

 

Entrevista com a mangaká Saito Chiho

Personagens lindos que se assemelham ao Takarakuza e tramas históricas dramáticas escritas em escala grandiosa. Europa medieval, Rússia do período moderno, Era Heian... Entrevistamos uma mestra em obras históricas longas que desenha esses vários períodos e países com sua habilidade para desenhos irresistível. Por que esse entusiasmo com obras históricas e o que ela pensa neste momento em que sua carreira como desenhista atinge os 35 anos?

 

Parte 1

 

- No Ensino Fundamental, brincava com minha amiga fingindo produzir uma revista de mangás –

 

- Quando era criança, que tipo de desenho você fazia?

Saito: Na época do jardim de infância, o que desenhava principalmente eram muitos robôs, como Tetsujin 28-go. Creio que naquela época eu me divertia mais desenhando linhas fortes do que traços fofos de seres vivos. Como minha irmã mais velha também era boa com desenhos, ao entrar no ensino fundamental, ela, eu e mais uma amiga criamos uma revista de mangá e brincávamos com isso. Cada uma desenhava a história que quisesse e nós juntávamos tudo com um grampeador. Escrevíamos inclusive chamadas para instigar a compra como “Uma nova serialização após a outra!” (risos) e colocávamos propagandas feitas à mão na contracapa.

 

- Que tipo de mangá você serializava nessa época?

Saito: Eu escrevi um mangá de vôlei porque recebi influência de obras que estavam no pico de popularidade, as quais mostram pessoas com espírito combatente, como Attack N. 1 e Sign wa V!. Algo como “Vamos juntas para as Olimpíadas de Teerã!”. Pensando agora, é um mistério o porquê era em Teerã (risos).

 

- Até quando vocês continuaram fazendo essa antologia?

Saito: No período do ensino fundamental 1, nós continuamos; porém, após entrar no ensino fundamental 2, o grupo separou-se. Eu mesma, depois disso, também fiquei um tempo afastada dos mangás.

 

- E que tipo de coisa você fez nessa época?

Saito: Assim que entrei na escola, virei membro do clube de tênis; porém, como havia muitas pessoas lá, não me deixavam acertar a bola, então eu me irritei e saí (risos). Depois disso entrei num grupo de pesquisa de mangá, mas no geral nós não líamos nada e só ficávamos vendo filmes e escutando músicas. Entretanto, uma vez uma amiga disse-me “Chiho-chan, você é boa com desenhos, não é? Desenhe isto” e me passou A Rosa de Versalhes. Ela ficou muito feliz quando eu entreguei uma cópia exata. Essa história espalhou-se e várias pessoas passaram a vir pedir para eu desenhar mangás para elas. Minha rotina diária dessa época era fazer cópias exatas de mangás como Sora ga Suki! da Takemiya Keiko e Poe no Ichizoku da Hagio Moto. Eu me sentia bem porque todos elogiavam minhas habilidades com desenhos (risos) e, antes que eu percebesse, passei a pensar que iria me tornar mangaká.

 

- E então você passou a desenhar mangás novamente.

Saito: Isso. No ensino médio, eu entrei em um grupo de pesquisa de mangá e nós também conseguimos, durante as férias de verão, permissão para todos os membros do grupo fazerem uma excursão escolar no departamento editorial da Betsu Comi. Só que, como eu fui lá com uma mentalidade Maria-vai-com-as-outras de querer ver os manuscritos da Takemiya e da Hagio, minhas próprias obras pareceriam estar sobrando nesse ambiente. Acho que foi por volta dos meus 20 anos que eu comecei a submeter genuinamente meus manuscritos e ganhei um editor.

 

- Qual foi a sequência de eventos disso até sua estréia?

Saito: Quando me mudei da Betsucomi para a Shoujo Comic (atualmente: Sho-Comi), seguindo meu editor que fora transferido, disseram-me que poderia desenhar o que quisesse e, como Os Três Mosqueteiros estavam na moda, desenhei Ken to Mademoiselle e essa virou minha obra de estréia. Ainda por cima, falaram-me que havia garantido um bloco de serialização de 4 semanas na revista, começando a partir do próximo número. Sem nem mesmo entender por quê, de repente fiquei ocupada.

 

- Conseguiu de uma sentada só a sua serialização de estréia, né? Foi bem tranquilo para você, não?

Saito: Porém essa serialização foi um grande fracasso (risos). Até aquele momento, eu só havia desenhado obras ocidentais, mas, na Shoujo Comic daquela época, os trabalhos que saíam eram principalmente sobre temas escolares que tinham por cenário o Japão atual e não se podia evitar isso. Eu me desafiei e tentei fazer algo diferente, mas como era de se esperar a popularidade do trabalho não veio... Nessa época fiquei bem para baixo.

 

- Eu, fundamentalmente, gosto de pessoas que fazem coisas ruins (risos) -

 

- Essa obra foi Tonderu Mitai, né? Ela não recebeu nem mesmo encadernação?

Saito: Não recebeu. Ou melhor, eu não quero que encadernem (risos). Sou muito grata porque mesmo depois disso me permitiram desenhar com constância mangás one-shot, mas até o fim eu não me acostumei com obras escolares e deixei esse tema parado por anos.

 

- De fato, parece-me que nesse período você desenhou um número enorme de mangás curtos.

Saito: Foi difícil porque eu tinha de quase que toda semana criar os personagens, cenários e enredo das histórias do zero. Em meio a isso, senti que finalmente havia tido um pouco de reação do público quando desenhei a obra Wedding to Yuu sobre duas pessoas apaixonadas recém-casadas. Havia o fato de eu já ser casada e meu editor recomendou que tentasse desenhar. Na minha cabeça eu fiquei reclamando que a vida de recém-casados não era tão doce assim, porém, talvez por histórias desse tipo serem raras, o mangá teve um pouquinho de sucesso. Quanto a obras românticas, mesmo que goste de vê-las, por exemplo, em filmes, hesitava em desenhá-las porque tinha muita vergonha, mas acabei me convencendo afirmando para mim mesma que não havia outra escolha (risos). Depois que me decidi a lutar nesse caminho embaraçoso, passei a desenhar assertivamente esses amores românticos.

 

- Você teve uma dificuldade dessas, né? Qual foi a obra que mudou sua opinião e fez você achar que conseguiria continuar devido à boa reação do público?

Saito: Acho que foi na época de Waltz wa Shiroi Dress de e Mou Hitori no Marionette. Especialmente Mou Hitori no Marionette foi uma mangá memorável, sendo que, como meu editor era alguém que conseguia por si mesmo escrever roteiros, nós ficávamos os dois através de tentativa e erro criando histórias que de alguma forma atraíssem as pessoas. Como surpreender as leitoras era nossa prioridade máxima, nós repetíamos um padrão de jogar nas obras um cenário absurdo e pensar na continuação na semana seguinte (risos).

 

- Então o Jin Masayuki ter dupla personalidade também...?

Saito: Foi algo decidido depois. Eu estava sempre quebrando a cabeça sobre como encaixar as partes da história enquanto adicionava cenários novos. Foi uma obra que me fez usar ao máximo minhas habilidades, mas, estranhamente, tenho a sensação que as peças juntaram-se com barulho e colocaram-se nos lugares apropriados, então as coisas deram certo (risos).

 

- Quanto à outra, Waltz wa Shiroi Dress de, ela foi sua primeira obra histórica, não é?

Saito: Isso. Como o palco principal é o Japão da década de 30, é uma obra histórica um pouco diferente da Europa medieval que eu sempre quis desenhar. Criei Waltz porque queria desenhar os militares daquela época.

 

- Isso quer dizer que a obra histórica que você realmente desejava fazer era Kakan no Madonna, cuja premissa tem por cenário o Ocidente da Idade Média e Idade Moderna?

Saito: Essa história me fez sentir que havia realizado meu verdadeiro desejo. Eu gosto demais de cavalos e capas, então pedi que eles me deixassem desenhar de alguma forma homens de capa montados em cavalos (risos). Como eu fora muitas vezes à Itália para fazer turismo relacionado às obras de arte, os cenários também foram fáceis de desenhar.

 

- Por que você pensou em desenhar Cesare, um personagem histórico?

Saito: Porque eu gostava do livro escrito por Shiono Nanami sobre ele (Cesar Borgia Aruiwa Yûganaru Reikoku). Eu, fundamentalmente, gosto de pessoas que fazem coisas ruins (risos). Além disso, gosto de pessoas que não são apenas vilões, mas têm um ar de carisma malvado e que, caso necessário, não medem os meios dos quais dispõem para atingir seus objetivos.

 

- Você sempre foi do tipo que aprecia homens ruins? (Risos)

Saito: É por aí. Desde o jardim de infância, eu via os Taiga Dorama e gostava muito de desenvolvimentos do tipo em que um garoto é maltratado pelos irmãos e pais, mas usa isso como encorajamento para crescer e contra-atacar! No Teatro Takarazuka também, eu gostava mais dos papéis masculinos, pois eram fortes e robustos, e certamente isso está na origem da minha fascinação por esse estilo de homem.

 

- A partir de Shoujo Kakumei Utena, eu tornei os meus desenhos mais sexys e sensuais –

 

- Isso deve estar relacionado ao fato de você desenhar personagens masculinos tão charmosos. Após esse, nós agora trataremos de Shoujo Kakumei Utena, que também é famoso como animê.

Saito: Originalmente, o plano era criar uma obra voltada para meninas que transformasse o mundo dos meus mangás em animê, mas, enquanto criávamos, ela foi ficando cada vez mais densa e no fim transformou-se em algo bem diferente do meu estilo (risos). Por isso digo que até é meu filho, mas é uma existência mais parecida com a de um enteado.

 

- Qual foi a sensação durante o período de produção?

Saito: Foi muito divertido. Enquanto membro da equipe, eu estava em um espírito de disposição para desenhar qualquer coisa, além do que dormimos juntos para costurar o roteiro e essa criação em grupo era um estilo novo para mim. Acima de tudo, como o diretor Ikuhara Kunihiko assumiu toda a responsabilidade pela obra, de qualquer forma eu fiquei despreocupada (risos).

 

- Houve alguma influência positiva da equipe de animação?

Saito: Houve muitas, mas fiquei especialmente surpresa com o quanto demorava para fazer o design dos personagens. Seios, nádegas, pernas... a fixação com partes das mulheres era tremenda (risos). No começo eu resisti à ideia de colocar tanta ênfase nos seios, mas aos poucos passei a tomar consciência do ponto de vista masculino. As figuras de shoujo mangá que eu havia acumulado até então foram um pouco quebradas. Acho que, após Shoujo Kakumei Utena, eu tornei os desenhos das minhas heroínas um pouco mais sexys e sensuais.

 

- Que tipo de reação você teve em relação à obra pronta?

Saito: Surpreendi-me porque, mesmo usando minhas ideias, personagens e minha visão de mundo, só pela forma de fazer a comida ser outra, a obra acabou tornando-se tão diferente assim. Ao mesmo tempo, a começar pelo diretor Ikuhara, toda a equipe fez uma análise completa de meu trabalho e tenho a impressão que eles me ensinaram características e peculiaridades que nem eu mesma havia percebido. Porque não há ninguém além do meu editor com quem eu converse tão profundamente assim sobre a minha obra.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

ENTREVISTA: HAYAMA SHONO E IIJIMA HIROKI FALAM SOBRE O ESPECIAL BOKU MO AITSU MO SHINRÔ DESU PARA O SITE TV LIFE

Ano passado, o canal Kansai TV exibiu um especial de comédia romântica chamado Boku mo Aitsu mo Shinrô desu (Eu e Ele Somos os Noivos, em tradução livre). Minha intenção era começar as traduções mais fixas do blog com Cherry Magic, mas surgiram imprevistos e não poderei me dedicar como gostaria esse fim de semana. Como o especial é só um episódio, resolvi revê-lo e traduzir uma entrevista com os atores (a foto também é do site TV Life).

Infelizmente, em vez do formato tradicional de perguntas e respostas, o que eles dizem está dentro da reportagem em japonês (todos os artigos que achei estão assim, pois as informações foram coletadas em uma coletiva de impressa para os sites). Por isso, traduzi o texto dessa reportagem. Fica aqui como registro da primeira tradução relacionada a BLs japoneses do meu blog. Só para constar: mantive o nome dos atores na ordem japonesa mesmo.


Hayama Shono e Iijima Hiroki falam sobre os pensamentos que colocaram em Boku mo Aitsu mo Shinrô desu: “Dejamos que o mundo tenha paz”

 

O dorama especial que Hayama Shono e Iijima Hiroki estrelam juntos, Boku mo Aitsu mo Shinrô desu (Kansai TV), será transmitido em 13 de março. Os atores fizeram uma coletiva de imprensa na Kansai TV.

Esta obra é uma comédia romântica comovente e de passo rápido cujo roteiro mostra o dia da cerimônia de casamento entre dois homens - Seto Ryosuke, um professor de ensino fundamental interpretado por Hayama Shono, e Aikawa Mizuki, um fazendeiro que cultiva limões interpretado por Iijima Hiroki.

Nesta ocasião, foi feita uma coletiva de impressa em que os protagonistas Hayama e Iijima tomaram o palco. Primeiramente, relembrando as gravações ocorridas por toda Hiroshima, Hayama disse que “foi difícil porque estava muito frio, mas a equipe e os atores conseguiram superar isso como um grupo”. Iijima acrescentou que “a agenda para as gravações foi apertada, porém nós nos esforçamos em conjunto. Nós também ganhamos okonomiyaki como recompensa e conseguimos aproveitar Hiroshima”. Assim, cada um falou sobre suas memórias.

Tendo ambos visto as imagens finalizadas: “Acho perfeito para ver meia noite e meia. Ficou uma obra sincera e engraçada”, disse Hayama. Iijima acrescenta: “Como cada personagem tem sua própria personalidade e o ritmo é muito bom, acho que é uma obra popular e fácil de ver”. Os dois, então, deram seu selo de aprovação.

Ao serem perguntados em qual parte gostariam de ver as pessoas prestando atenção, “Quando vesti o smoking pela primeira vez, demorei dois dias para me acostumar, mas no fim fiquei triste por não poder mais usá-lo. Ao lado do Iijima, nós parecemos membros do grupo Junretsu (risos)”, disse Hayama com um sorriso no rosto. “Gostaria que as pessoas prestassem atenção no significado do brinco que eu uso e nas expressões triviais de cada um dos personagens que aparecem”, falou Iijima, pondo luz sobre os pontos com os quais eles se preocuparam na hora de atuar.

Com relação ao tema da obra ser o casamento entre dois homens, “Talvez ainda não seja tão aceitado assim no Japão, porém, através da minha atuação, senti que poderia ajudar o Japão a se tornar mais tolerante daqui em diante em relação aos LGBTQs. Há muito dessa mensagem nesta obra”, comentou Hayama.

Continuando: “No Japão, também está crescendo este tipo de obra e o mundo está mudando consideravelmente. Se esta obra se tornar um passo a mais em direção a um mundo melhor, ficarei muito feliz enquanto criador”, expressou também Iijima.

Por fim, “Estamos em uma época realmente difícil, então ficaremos felizes se conseguirmos que, apenas na hora em que veem esse dorama, vocês não pensem em nada e torçam por esses dois, entendendo que esse tipo de pessoa também existe. Nessa história está inclusa também a mensagem ‘Desejamos que o mundo tenha paz’”, falou Hayama.

Iijima acrescenta: “Foi uma obra divertida de encenar. Tem crescido o número de obras BLs, mas é engraçada uma que começa de repente na cerimônia de casamento e penso que seria bom se vocês se divertissem com este novo mundo de BL. Por favor, fiquem na expectativa para ver as belas paisagens de Hiroshima também”. Essa é sua mensagem para os telespectadores.

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